segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O eremita


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(Marillion, Fugazi)


Hoje desliguei o telemóvel. Quer dizer, não o liguei. Quando ele, descomedido como sempre («Alarme! Alarme! Alarme!»), me acordou, eu, inusitadamente, respondendo «Não» à costumeira pergunta «Activar telefone p/ chamadas?», mandei-o dormir a ele.
Anteontem desesperei, espremendo a carga da bateria quase até à última gota em tentativas frustradas de te contactar. De todas as vezes, ou o teu telemóvel estava como o meu está agora, ou, estando ligado, vibrava inutilmente para te chamar a atenção. (Imagino-o fremindo como um louco, tomado por um injustificado excesso de excitação.) Ou, muito simplesmente, não atendias.
Ontem alterei a táctica. Sabendo de antemão que o mais certo era não poder contar contigo (como prontamente me fizeras saber, não especificamente em relação ao dia de ontem), decidi não te contactar de todo. Se eu fizesse falta, que me telefonasses tu. (Escusado será dizer que também aí fracassei, se bem que apenas parcialmente: por duas vezes quebrei a auto-imposta moratória sobre as tentativas de contacto, conseguindo no entanto resistir a ligar-te para o telemóvel.) Não posso dizer que a estratégia se tenha revelado benéfica: não só falhei (felizmente?) em contactar-te, como nem uma única vez me ligaste tu — pelo menos não antes de que o teu telefonema tivesse já deixado de ter significado. Senti-me mal: é horrível esperar por um sinal que nos indique que somos necessários, e esse sinal não chegar nunca. Por isso
quando hoje de manhã me deparei com a hipótese de «Activar o telefone p/ chamadas?», optei pelo «Não»: decidi manter o telemóvel desligado para poder sonhar.
Pela primeira vez entendo as motivações dos eremitas — de todos, antigos, medievais e modernos. Penso que é redutor considerar que se isolavam para estarem mais próximos de Deus: na realidade, isolavam-se para poderem sonhar (Deus é uma redução do sonho, concluo) sem as restrições impostas pela realidade. Deviam ser todos eles uns desprezados, uns ignorados, uns «solitários entre a gente» (não foi preciso esperar pela modernidade para criar estes espécimes) que, isolando-se no alto dos montes e no mais profundo das cavernas, alimentavam a fantasia de que, lá em cima à superfície, lá em baixo nas aldeias, nas vilas e nas cidades, uma multidão entre a gente — a gente! — perguntava, órfã, onde estará o Bernardo, por onde andará o Bento, exclamava, saudosa, que bom seria estar aqui o Clemente, a falta que o João me faz...
Resolvi, então, também eu alcançar a plenitude da auto-estima pela potenciação dos devaneios de importância permitidos pelo blackout informativo, uma versão suave e mais acessível de privação sensorial.
Ah, a paz, a paz… Posso agora lançar para trás das costas toda a ansiedade de um telefonema teu, pois sei que ele nunca ocorrerá. Mas não porque eu não faça falta! Não: posso sempre imaginar que algures, em desespero, estás tu a tentar contactar-me, espremendo tu a bateria do teu telemóvel em contactos infrutíferos com o meu, adormecido. E, quando à noite finalmente eu o ligar, mesmo que nenhuma mensagem tua («Então?…») me aguarde no atendedor de chamadas, posso sempre imaginar que me ligaste, sim — de facto, repetidas vezes —, mas que de todas elas optaste pelo silêncio menságico.
Pode tudo isto ser mentira — mas é a minha verdade, a verdade que me interessa. Por essa razão, quando finalmente te encontrar, não te perguntarei nada — para que não possas desmoronar o meu castelo de luz.

Fernando Gouveia


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