terça-feira, 18 de março de 2014

carta a coimbra

o atrito. todo o atrito. todo e qualquer atrito. todo e qualquer atrito pode ser vencido. a minha mão a cobrir a tua, o caule bonito de uma rosa, olisipo. todo o atrito pode ser vencido. a primeira vez que me disseste boa noite, a tua alma de flor, as pequenas coisas de que és feita.

todo e qualquer atrito. as tuas cartas. todos os telhados de lisboa. um pequeno pedaço de luz. a rotina dos teus braços à volta do meu pescoço. coimbra. évora. s. paulo. todos os lugares onde amanhece a tua geografia. a geometria dos teus passos. os teus silêncios. as tuas demoras. as tuas ausências. 

o gesto que desenhavas ao apertar o casaco mais as coisas insignificantes que me dizias.

a distância existe. o atrito. a rotina perde-se sem a rotina. e a rotina é uma coisa boa. quem diz o contrário não sabe o que são os dias sem ti. a rotina é boa porque é  feita de milhares de coisas muito pequeninas e boas. mas a rotina perde-se com a distância. na verdade talvez nada permaneça. talvez esse seja o segredo do mundo. talvez nada do que possas fazer para salvar o teu coração tenha importância. mesmo que sobrevivas. 

não devias ter partido. e não devias ter evitado a despedida com a desculpa de que não gostas de despedidas. as despedidas são reencontros que se demoram. as despedidas são o sal da pele. a própria pele. a tua pele. os teus cotovelos. o medo de te perder. que estúpido me parece tudo agora que a distância existe. o estúpido medo de te perder.

e a distância existe. por isso esta cama que não é a tua. este cheiro que não é o teu. um cheiro de que só lembro porque não é o teu. por isso esta língua. estes dedos nos meus lábios. estes lábios nos meus lábios. por isso todos os amanheceres que o teu corpo me nega. por isso todos os amanheceres. 

a primeira vez que me disseste boa noite.

eu nunca te pedi que existisses. que fosses a minha metade. que fosses janela de chuva em tarde de mantas e livros. nunca pedi a tua mão no meu ombro. que me abraçasses por trás. que me acordasses com beijos cheiro a café silêncios ou outro qualquer milagre do quotidiano. eu não te escolhi. nunca vi nos teus olhos laranjeiras a multiplicar o sol nem pétalas de jardim. não devias ter deixado para trás todas as horas que esperei por ti. devias ter levado tudo. mais as promessas que eu nunca quis, aquele banco de jardim, o teu lado da cama. que  eu nunca te pedi explicações que tivesses que inventar. nunca te exigi mentiras. nunca te pedi que chegasses à hora certa. que viesses sequer. nem a tua respiração no meu ouvido. a tua rua inteira. 

e estou tão farto dessa história de que as histórias tristes dão boas cartas. 

quero que chegues. já não sei chorar. tenho as mãos vazias e sobrou tanto tempo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Carta ao Pai

Ontem, o meu pai foi-se embora. Não foi e já volta; emigrou para o Recife e deixou este país, onde nasceu e onde viveu durante 65 anos. A sua reforma seria, por cá, de duzentos e poucos euros, mais uma pequena reforma da Sociedade Portuguesa de Autores que tem servido, durante os últimos anos, para pagar o carro onde se deslocava por Lisboa e para os concertos que foi dando pelo país. Nesses concertos teve salas cheias, meio-cheias e, por vezes, quase vazias; fê-lo sempre (era o seu trabalho) com um sorriso nos lábios e boa disposição, ganhando à bilheteira. Ontem, quando me deitei, senti-me triste. E, ao mesmo tempo, senti-me feliz. Triste, porque o mais normal é que os filhos emigrem e não os pais (mas talvez Portugal tenha sido capaz, nos últimos anos, de conseguir baralhar essa tendência). Feliz, porque admiro-lhe a coragem de começar outra vez num país que quase desconhece (e onde quase o desconhecem), partindo animado pelas coisas novas que irá encontrar. Tudo isto são coisas pessoais que não interessam a ninguém, excepto à família do senhor Tordo. Acontece que o meu pai, quer se goste ou não da música que fez, foi uma figura conhecida desde muito novo e, portanto, a sua partida, que ele se limitou a anunciar no Facebook, onde mantinha contacto regular com os amigos e admiradores, acabou por se tornar mediática. E é essa a razão pela qual escrevo: porque, quase sem o querer, li alguns dos comentários à sua partida. Muita gente se despediu com palavras de encorajamento. Outros, contudo, mandaram-no para Cuba. Ou para a Coreia do Norte. Ou disseram que já devia ter emigrado há muito. Que só faz falta quem cá está. Chamam-lhe palavrões dos duros. Associam-no à política, de que se dissociou activamente há décadas (enquanto lá esteve contribuiu, à sua modesta maneira, com outros músicos, escritores, cineastas e artistas, para a libertação de um povo). E perguntaram o que iria fazer: limpar WC's e cozinhas? Usufruir da reforma dourada? Agarrar um "tacho" proporcionado pelos "amiguinhos"? Houve até um que, com ironia insuspeita, lhe pediu que "deixasse cá a reforma". Os duzentos e tal euros. Eu entendo o desamor. Sempre o entendi; é natural, ainda mais natural quando vivemos como vivemos e onde vivemos e com as dificuldades por que passamos. O que eu não entendo é o ódio. O meu pai, que é uma pessoa cheia de defeitos como todos nós - e como todos os autores destes singelos insultos -, fez aquilo que lhe restava fazer. Quer se queira, quer não, ele faz parte da história da música em Portugal. Sozinho, ou com Ary dos Santos, ou para algumas das vozes mais apreciadas do público de hoje - Carminho, Carlos do Carmo, Marisa, são incontáveis - fez alguns dos temas que irão perdurar enquanto nos for permitido ouvir música. Pouco importa quem é o homem; isso fica reservado para a intimidade de quem o conhece. Eu conheço-o: é um tipo simpático e cheio de humor, que está bem com a vida e que, ontem, partiu com uma mala às costas e uma guitarra na mão, aos 65 anos, cansado deste país onde, mais cedo do que tarde, aqueles que o mandam para Cuba, a Coreia do Norte ou limpar WC's e cozinhas encontrarão, finalmente, a terra prometida: um lugar onde nada restará senão os reality shows da televisão, as telenovelas e a vergonha. Os nossos governantes têm-se preparado para anunciar, contentíssimos, que a crise acabou, esquecendo-se de dizer tudo o que acabou com ela. A primeira coisa foi a cultura, que é o património de um país. A segunda foi a felicidade, que está ausente dos rostos de quem anda na rua todos os dias. A terceira foi a esperança. E a quarta foi o meu pai, e outros como ele, que se recusam a ser governados por gente que fez tudo para dar cabo deste país - do país que ele, e milhões de pessoas como ele, cheias de defeitos, quiseram construir: um país melhor para os filhos e para os netos. Fracassaram nesse propósito; enganaram-se ao pensarem que podíamos mudar. Não queremos mudar. Queremos esta miséria, admitimo-la, deixamos passar. E alguns de nós até aí estão para insultar, do conforto dos seus sofás, quem, por não ter trabalho aqui - e precisar de trabalhar para, aos 65 anos, não se transformar num fantasma ou num pedinte - pegou nas malas e numa guitarra e se foi embora. Ontem, ao deitar-me, imaginei-o dentro do avião, sozinho, a sonhar com o futuro; bem-disposto, com um sorriso nos lábios. Eu vou ter muitas saudades dele, mas sou suspeito. Dói-me saber que, ontem, o meu pai se foi embora.

João Tordo


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

o que vejo, quando tentar esquecer-te é já não querer lembrar

Paro.
não entras pela porta.
e eu paro.

As simples insuspeitas coisas que deixaste assombram-me
se paro
que não saberei nunca se me amaste como eu queria amar-te. Nem preciso mais: o que só tem uma direcção nunca será caminho.

vou contar-te a história que vivemos.
Duas pessoas, uma teimosia com mil destinos que ficaram por saber.
E sinto a saudade de tudo o que quebrei, sinto
sinto a saudade das pessoas que deixei…
Sentirei sempre a saudade.
Mas amor e saudade serão utopias enquanto forem palavras.

E é no teu adeus que começam os meus caminhos!

Regressamos devagar às memórias como quem volta a casa, continuamos a acreditar que a chave dessa porta alguma vez nos pertenceu mas a única coisa que abriu foi passados.
Como posso continuar a olhar para essa porta?
se sempre quis futuro.

Não quis que fosse o fim mas já é tarde. É muito tarde e 
é tarde demais.

Quando penso em nós não penso em querer-te, penso em mudar-te.
Quero esquecer-te! E depois, 
que mal tem quebrar a maldição dos cómodos caminhos que me levam a ti quando me esqueço que já não preciso lembrar-te?

Ontem fizeste-me falta. 
Nunca saberás a falta que me fazias quando precisei que soubesses
nunca conseguirei mudar o que ficou por fazer se já não lembro.

Nem preciso de te esquecer. 
Quero os meus caminhos.
Paro
e não entrarás mais pela porta 
que não voltará a abrir. 

Esquecer afinal não é preciso se já não preciso de lembrar.

Já não temos idade para não sabermos esquecer.
A idade que fomos ficará, sim, mas não é
nem futuro.
Eu não posso ficar, não podemos insistir em portas fechadas.

A chave fica comigo
Para a perder para sempre.

Maria Supertramp

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

o que vês quando fechas os olhos, o que esqueces?

o que vês quando fechas os olhos, o que esqueces?

quero acreditar que tudo foi real, que fomos mesmo, que me deste mesmo a mão naquela rua, em todas as ruas, que houve sorrisos e orgasmos e sorrisos entre os orgasmos e lágrimas e música entre os gritos. que o amor foi real e foi febril, embora eu não goste da palavra, que houve história, que eras tu quem eu via adormecer ao meu lado, que era eu quem te via adormecer, que eu era mesmo eu e era quem tu vias ver-te adormecer.

sinto a tua falta e quero tanto crer que sinto a tua falta, 

sinto a tua falta, mas o vazio já cá estava.

e escrevo-te porque sinto a tua falta. sinto a tua falta e escrevo-te porque sinto a tua falta e porque não te resolves a morrer nunca, porque decides sempre ficar mais um bocadinho.

e podias ter ficado. e podias ter insistido. e não precisavas sequer de ter insistido muito: um pequeno gesto: uma palavra feliz: a breve aparição de uma lágrima.

e podias ter ficado e talvez os meses tivessem nomes de gente ou de cidade: maio teria sempre o teu nome, como barcelona, e agosto o teu nome e fevereiro seria sempre o nosso primeiro fevereiro, e não uma cidade queimada, uma rua sozinha, um cinzeiro abandonado.

esta impossível mania da idade. este esquecimento que não chega.

nunca te menti. ou nunca te menti depois do sexo. e nunca te menti depois de abraçar. nunca te menti naquela fotografia. não te minto. quem parte não tem mentiras para deixar.  tudo é não saber dizer: talvez eu não fosse para ti,

mas lembras-te que éramos felizes?

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

não tenho nada para te dizer

a mulher lê o que escreve. é como se não tivesse sido ela. depois de escrever, esquece sempre. escreve na terceira pessoa do singular, como se de outra se tratasse. sempre lhe pareceu não ser possível que seja ela a ter vivido a vida que teve, que tem, por isso, escreve como se fosse outra. como se visse de fora. assim, não há espanto. nos outros tudo é possível. 
há dias apeteceu-lhe escrever 'conheço o carlos há cerca de uma semana, não sei como entrei neste filme, nesta história que não é minha. procurou-me para chorar no meu ombro o seu amor rejeitado por outra mulher, e ficou. e quer ficar. ele parece ser um bom homem, um bom ser humano, um a ave à procura de um ninho. eu não sei o que faço aqui, esta vida não é a minha, e no entanto, não consigo sair, como um insecto caído na teia de uma aranha.'

Ana

mais coisas maravilhosas da ana aqui

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Isto não é uma carta de amor

Um dia serei capaz de vos desejar, aos dois, as maiores felicidades. Hoje não. Ainda não. Hoje tenho este peso visceral de sete anos da minha vida que não voltam atrás. Uma sensação que me corrói. Terá, apesar de tudo, valido a pena? Há um pequeno lugar secreto no fundo do meu coração que me diz que sim. Mas há todo um corpo e alma que me doem tanto, que não sei dizer. Não tenho respostas. Toda eu sou porquês. Porquê, em tantos anos nunca saímos da casa da partida?... Porquê, nunca tivemos uma única oportunidade real?... Porquê, nunca mereci que tivesses lutado por mim?... Sabes, era só isso que eu queria. Por uma vez. Mas sobra-me a sensação de tudo ter sido apenas imaginado por mim. Não existem provas ou testemunhas. A nossa história não ficou marcada em lugar algum. Os nossos nomes não estão escritos algures, esculpidos na pedra eterna. Não. Ninguém virá a saber que houve um dia um amor assim. E isso… dói. Sim, eu amei-te. Por inteiro. Pelos teus demónios e pelos teus anjos. Amei-te mesmo quando te odiava. Sei que amarei sempre. Mesmo quando amar outros. Não, já não tenho a esperança de que um dia os astros se alinhem. Isto não é uma carta de amor. Isto não é um exercício literário. Isto é um exorcismo. Isto sou eu totalmente nua. Que se foda. Não levarei para o túmulo nada por dizer ou por sentir. Isto sou eu a despir-me de todas as lágrimas por chorar. De todas a palavras que nunca te disse. De tudo o que ficou por fazer contigo. Isto sou eu a limpar a alma. E digo-te, como no início, uma última vez… Hello my love. Lembras-te?

Marla

outras coisas maravilhosas da Marla no maravilhoso Crimes Perfeitos, aqui

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Carta a um jovem poeta

Roma,
14 de maio de 1904

Meu caro senhor Kappus, 

Passou muito tempo desde que recebi sua última carta. Não me guarde rancor; primeiro foi o trabalho, depois uma perturbação e finalmente uma doença que me impediram de dar uma resposta que partisse (assim eu queria) para o senhor de dias calmos e agradáveis. Agora me sinto novamente um pouco melhor (o início da primavera, com suas transições cruéis e geniosas, também foi difícil por aqui) e venho cumprimentá-lo, caro senhor Kappus, e lhe dizer (o que gosto muito de fazer) uma ou outra coisa sobre sua carta, da melhor maneira que posso. O senhor pode notar que copiei seu soneto, porque achei que ele é belo e simples, nascido em uma forma na qual se desenrola com tão tranquila sobriedade. São os melhores versos que cheguei a ler de sua parte. E agora lhe dou essa cópia, porque sei que é importante e uma experiência inteiramente nova reencontrar um trabalho próprio escrito com a letra de outra pessoa. Leia os versos como se fossem alheios, então sentirá de maneira mais íntima o quanto são seus... Foi uma alegria para mim ler muitas vezes esse soneto e sua carta; portanto agradeço pelos dois. Não se deixe enganar em sua solidão só porque há algo no senhor que deseja sair dela. Justamente esse desejo o ajudará, caso o senhor o utilize com calma e ponderação, como um instrumento para estender sua solidão por um território mais vasto. As pessoas (com o auxílio de convenções) resolveram tudo da maneira mais fácil e pelo lado mais fácil da facilidade; contudo é evidente que precisamos nos aferrar ao que é difícil; tudo o que vive se aferra ao difícil, tudo na natureza cresce e se defende a seu modo e se constitui em algo próprio a partir de si, procurando existir a qualquer preço e contra toda resistência. Sabemos muito pouco, mas que temos de nos aferrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom ser solitário, pois a solidão é difícil; o facto de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la. Amar também é bom: pois o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda não podem amar: precisam aprender o amor. Com todo o seu ser, com todas as forças reunidas em seu coração solitário, receoso e acelerado, os jovens precisam aprender a amar. Mas o tempo de aprendizado é sempre um longo período de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida, solidão, isolamento intenso e profundo para quem ama. A princípio o amor não é nada do que se chama ser absorvido, entregar-se e se unir com uma outra pessoa. (Pois o que seria uma união do que não é esclarecido, do inacabado, do desordenado?) O amor constitui uma oportunidade sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si mesmo por causa de uma outra pessoa; é uma grande exigência para o indivíduo, uma exigência irrestrita, algo que o destaca e o convoca para longe. Apenas neste sentido, como tarefa de trabalhar em si mesmos ("escutar e bater dia e noite"), as pessoas jovens deveriam fazer uso do amor que lhes é dado. A absorção e a entrega e todo tipo de comunhão não são para eles (que ainda precisam economizar e acumular por muito tempo); a comunhão é o passo final, talvez uma meta para a qual a vida humana quase não seja o bastante. É aí que os jovens erram com frequência, gravemente: pelo facto de eles (faz parte de sua natureza não ter paciência alguma) se atirarem uns para os outros quando o amor vem, derramando-se da maneira como são, em todo o seu desgoverno, na desordem, na confusão... Mas o que deve resultar disso? O que a vida deve fazer desse acúmulo de equívocos a que eles chamam de união e gostariam de chamar de sua felicidade? E o futuro? Então cada um se perde por causa do outro e perde o outro e muitos outros que ainda desejariam surgir. Perdem-se as vastidões e as possibilidades, troca-se a aproximação e a fuga de coisas quietas, cheias de pressentimentos, por um desespero infrutífero do qual nada mais pode resultar; nada mais do que um pouco de náusea, desapontamento e pobreza, e com isso a salvação em uma das muitas convenções que estão disponíveis em grande número, como abrigos para todos nesse caminho extremamente perigoso. Nenhuma região da experiência humana é tão munida de convenções quanto essa: salva-vidas dos mais diversos, botes e bóias; refúgios de todos os tipos foram criados pela compreensão comum, pois ela estava inclinada a considerar a vida amorosa como um prazer, por isso tinha de torná-la fácil, barata, inofensiva e segura, como são os prazeres públicos.  De facto muitos jovens que amam de modo falso, ou seja, simplesmente entregando-se, sem preservar a solidão (a maioria não passará nunca disso), sentem a opressão de um erro e querem, de uma maneira própria e pessoal, tornar vivida e fértil a situação em que se precipitaram. Pois a sua natureza lhes diz que as questões do amor, de tudo o que é importante, são as que menos podem ser resolvidas abertamente, segundo um acordo qualquer; são perguntas íntimas feitas de uma pessoa para outra, perguntas que exigem em cada caso uma resposta nova, especial, apenas pessoal. Mas como é que eles poderiam encontrar uma saída em si mesmos, do fundo de sua solidão já desperdiçada, eles que se atiraram, que não se delimitam nem se diferenciam, e que portanto não possuem nada de próprio?
Os jovens tomam atitudes a partir de um desamparo comum e, quando querem evitar de boa vontade a convenção que se anuncia (por exemplo o casamento), caem nos braços de uma solução menos explícita, mas igualmente convencional e mortal. Pois tudo o que existe em torno deles é convenção; onde quer que se trate de uma comunhão precipitada e turva, todas as atitudes são convencionais. Toda relação resultante de tal mistura possui a sua convenção, mesmo que seja pouco usual (ou seja, imoral em sentido comum). Até a separação seria um passo convencional, uma decisão ocasional e impessoal sem força e sem frutos. Quem observa com seriedade descobre que, assim como para a morte, que é difícil, também para o difícil amor não se reconheceu ainda nenhum esclarecimento, nenhuma solução, nem aceno, nem caminho. Para essas duas tarefas, que carregamos e transmitimos secretamente sem esclarecer, nunca se achará uma regra comum baseada em um acordo. Contudo, à medida que começamos a tentar a vida como indivíduos, essas grandes coisas se aproximam muito de nós, os solitários. As exigências que o difícil trabalho do amor impõe ao nosso desenvolvimento são sobre-humanas, e nós, como iniciantes, não podemos estar à altura delas. Mas se perseveramos e assumimos esse amor como uma carga e um período de aprendizado, em vez de nos perdermos em todo o jogo fácil e frívolo atrás do qual as pessoas se esconderam da mais séria gravidade de sua existência, talvez se perceba um pequeno avanço e um alívio para aqueles que virão muito depois de nós; e isso já seria muito. No entanto, só chegamos no máximo a considerar objectivamente e sem preconceitos a relação de um indivíduo com outro indivíduo, e nossas tentativas de viver tais relacionamentos não têm nenhum modelo diante de si. Mesmo assim há, na própria passagem do tempo, algo que ajuda a nossa iniciação hesitante. A menina e a mulher, em seu desdobramento novo e próprio, serão apenas de passagem imitadoras dos vícios e das virtudes masculinos e repetidoras das profissões dos homens. Depois da incerteza dessas transições, o que se revelará é que as mulheres só passaram por todos esses sucessivos disfarces (muitas vezes ridículos) para purificar sua própria essência das influências deformadoras do outro sexo. As mulheres, nas quais a vida se instala e habita de modo mais imediato, frutífero e cheio de confiança, no fundo precisam ter se tornado seres humanos mais maduros, mais humanos do que o homem, pois ele não passa de um ser leviano, que é mergulhado sob a superfície da vida pelo peso de um fruto carnal, que menospreza, arrogante e apressado, aquilo que pensa amar. Essa humanidade da mulher, realizada em meio a dores e humilhações, virá à tona quando ela se tiver livrado das convenções do exclusivamente feminino nas transformações de sua situação exterior. E os homens, que hoje não a sentem vir ainda, serão surpreendidos e derrotados por essa humanidade. Um dia (já agora, especialmente nos países nórdicos, os indícios confiáveis a favor disso são eloquentes), um dia se encontrarão a menina e a mulher cujos nomes não significarão apenas uma oposição ao elemento masculino, mas algo de independente, algo que não fará pensar em complemento ou em limite, apenas na vida e na existência: o ser humano feminino. Tal progresso transformará profundamente a vivência do amor, agora cheia de equívocos, trará alterações profundas (a princípio contra a vontade dos homens ultrapassados), configurando uma relação de ser humano com ser humano, não mais de homem e mulher. E esse amor mais humano (que se realizará de modo infinitamente delicado e discreto, certo e claro, em laços atados e desatados) será semelhante àquele que nós preparamos, lutando com esforço, portanto ao amor que consiste na protecção mútua, na delimitação e saudação de duas solidões. E ainda isto: não creia que aquele grande amor que um dia se impôs ao senhor, quando garoto, se perdeu. Será possível saber com certeza se, naquele tempo, não amadureceram grandes e belos desejos, propósitos dos quais o senhor vive ainda hoje? Acredito que aquele amor permanece tão forte e intenso em sua lembrança porque foi sua primeira solidão profunda, o primeiro trabalho íntimo com que o senhor elaborou sua vida. 

Tudo de bom, caro senhor Kappus! 

Seu, 

Rainer Maria Rilke