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quarta-feira, 9 de maio de 2012

o mar quebrou-se


há portas que tens que abrir para eu saber entrar

perguntas-me: onde estão as estações?

dizes que o verão pôs o chapéu e vestiu o fato do inverno, que a primavera se escreve com minúscula porque inexistentes a cerejas desaparecidas as andorinhas, que precisas dos raios de sol que por vezes te envio por entre os lagos que se formam no ar entre as gotas de chuva que insistem em se despedir do céu

onde estão as estações, perguntas-me?

não sei se este é o raio de sol que precisas, mas estou a escrever esta carta para ti e esta carta não tem medo e não foge de ansiedade e diz que há um caminho para ti, um caminho feito de eternidades, séculos de incêndios, fios invisíveis por tecer

o teu sorriso acende estrelas, sabias?

e hoje senti falta do teu sorriso que acende estrelas e do teu olhar e de certas palavras inventadas e gostava tanto de sentir a tua respiração embaciar o vidro da janela quebrar o mar para poder dizer-te:

o mar quebrou-se na janela mais impossível do mundo, o mar quebrou-se

e dizer-te:
alimento-me das palavras que me inspiras de cometas delicados de flores despenhadas onde tudo é potência céu alto

e:
adoro os lugares fantásticos que descubro no teu sorriso mais o exacto instante que antecede o teu sorriso, aquele em que ele começa a nascer e se deixa adivinhar mais a tua clavícula despida

não acreditas?

conheço a geografia do teu riso a transparência do teu grito interior nos dias imperfeitos e não tenho medo, nem da roupa a queimar a pele  turbulência que precede a felicidade

existes. existes. existes. não há maior excesso.

atravessei séculos de incêndios e hoje sonho contigo e não tenho medo

atravessei séculos de incêndios e hoje sonho contigo e não tenho medo de te ver chegar.

encontramo-nos em Paris. um só segundo de perfeição. um adeus eterno à chuva.a cura.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

a cidade está a dizer-se e não há primavera que não se faça ouvir


quanto pesa um coração? quanto pesam seiscentos gramas de erosões nocturnas espelhos de chuva quilómetros de solidão?

ouve-se, a minha solidão ouve-se?

escrevo-te daqui, de um arquipélago sem memória porque só memória, e no fundo não tenho nada para te dizer:  a tua respiração faz nascer o sol na minha boca, só isto o que tu já sabes o que não preciso de voltar a escrever

não tenho a certeza de saber ser uma pessoa triste, não tenho

fica tudo tão parado    por tanto tempo

sobrevivo à custa de leituras de emergência e de pequenos contentamentos que compro em lojas que vendem coisas de pessoas falecidas: uma grafia muito antiga às vezes um chapéu apaixonado outras vezes tempestades por entre prateleiras vazias e pulsos muito despidos

e depois sonho contigo

e amanhã vou voltar a sonhar e não vou conseguir morrer, quem ama não morre da morte, e amanhã na rue saint-honoré tu vais voltar a perguntar: não tens mais nada para fotografar? e eu vou sufocar por dentro do incêndio provocado pelo teu olhar pelos teus tornozelos pelo teu sangue dentes cheiro pele na minha pele

e continuo a gostar tanto de te cheirar por dentro

na saint-honoré os teus tornozelos nus os teus pés parados:não tens mais nada para fotografar?  não quero que cresça mais erva no meu coração por isso preciso de te fotografar não quero que cresça  mais erva no meu coração e não sei fotografar mais nada e tu a sorrir:comprei estas calças para ti e se é só por isso não precisas de saber fotografar mais nada e da janela do teu táxi a gritares:é por ti, é por ti que hei-de voltar, que volto sempre  e nesse momento o lavatório começa a pingar a noite e a sanita a pingar também e o frio que só pára de pingar contigo na minha camisa vestígios de uma manhã muito branca no teu seio e não se ouve pingar a noite com os meus lábios a escorregar para os teus mesmo antes de acordar eu no teu ouvido:a tua aparição é sempre um acontecimento de azul estrelas constelações muito brilhantes e arrepios e sol e sol a queimar no céu da boca


e começo a acordar

a cidade está a dizer-se e não há primavera que não se faça ouvir nesta cidade que tem um nome que só em sonho se pode pronunciar e pássaros azuis pássaros muito azuis a pintar o céu de todas as cores

e tu entras por aquela porta, recolhes o meu corpo do chão, juntas todos os pedaços, até os mais pequenos, até os que não se podem ver, tiras-me o livro da mão, acabas com esta chuva invisível, fechas a janela, despes-te, deitas-te, abraças-me, beijas-me atrás da orelha e dizes baixinho: não precisas de me fotografar, somos namorados, volta a dormir eu vigio o teu sono.

segunda-feira, 5 de março de 2012

o que diria uma fotografia se pudesse mentir?


o que diria uma fotografia se pudesse mentir?

houve uma hora em que fui mais feliz do que em todas as outras, do que se pode ser, e tu estavas lá e  todos os meus músculos existiam. já ouvia o eco que a neve faz ao cair no mar mas a tua mão a tatuar a madrugada da minha…

agora é o tempo suspenso no cigarro vazio por dentro da solidão

e não fiquei como prometi ficar. e não fiquei como nas noites à tua cabeceira os panos frios a tua febre as sopas as orações a um deus que nunca  vi pedro e inês e não fiquei como prometi a ver o teu avião subir e não me passou pela cabeça correr para ti em câmara lenta tudo correr e parar a dois centímetros milímetros de ti e não vás e juro que não me passou pela cabeça e nem sequer olhei para trás que não há finais felizes, não há.

e o que diria a minha fotografia se te pudesse mentir?

o meu mundo ainda te olha e da janela do nosso quarto não há distância que a tua ausência nunca me deixou e nunca me deixou ser mais do pedaços e sabia que me ias destruir, sempre soube, e deixei. só nos destrói quem nós muito intimamente queremos que nos destrua. percebes isto? escolhi-te.

e não fiquei como prometi ficar a ver o teu avião subir por entre as minhas lágrimas, não, não chorei e não fiquei para tu não veres que não chorei para tu hoje muito longe embora deste quarto de onde o meu mundo ainda te olha não exista distância, continuo a escrever para ti que não sei fazer mais nada e a conversar com o jeff no gira-discos e a edith também me visita mas só nos dias mais tristes, nos dias em que a minha solidão me contempla me deseja e me despreza      me despreza

e a nossa fotografia se pudesse mentir?

voltarmos ao caminho um do outro, partilharmos a nossa cama que eu partilhei com outras e não me custou acredita a cama e despertares com beijos flores raras mentiras daquelas que só se inventam para quem importa e tu no aeroporto e eu a atravessar a cidade inteira sem encontrar o caminho para casa e sem olhar para trás e neste momento sei o que dirias ao meu ouvido abraçando-me por trás sei o que dirias e não interessa porque não faria qualquer diferença porque o destino nem sempre obedece ao destino porque tu muito longe porque eu nesta carta muito longe também    das promessas antigas da nudez lunar da casa das nossas noites esconderijo de sal onde incendiávamos os dias.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

um segundo dos teus olhos


um segundo dos teus olhos

e o tempo acaba de começar,

uma sombra de luz abre a janela deste quarto donde te escrevo entre livros que se podem cheirar na janela que se abriu e um vento minúsculo feito de pequenos fios invisíveis pequenos lagos irrompe num beijo de gotículas com sabor a mar

e a primeira vez que olhaste para mim pensei: o tempo acaba de começar e não disse: o tempo acaba de começar e percebi assim que a poesia, como tudo, nos falha nas horas em que nos é mais necessária e levanto agora a persiana e a sombra da lua que aprendeu a ser luz caminha até ao teu corpo feito de pequenas letras que eu vou formando neste papel que um dia poderá cheirar como cheiram os livros e um vento muito pequenino quase minúsculo irrompe num beijo de gotículas com sabor ao mar da tua boca e eu vou aprendendo assim o significado íntimo das cores a inclinação da respiração da terra a vertical existência do céu nas flores

e espero que me ouças quando daqui sussurro     continua a ser uma experiência de pele a estremecer  pupilas muito brilhantes arrepios de juventude o aparecer dos teus ombros  e os ossos de onde emerge o teu pescoço a aparecer também  e as tuas costelas prova esplendorosa de que adão não existiu com o ar a tornar-se mais puro e mais quente e mais ar a descer pela tua garganta

e hoje estavas especialmente bonita e eu sei que estás sempre mas hoje estavas especialmente bonita e amanhã especialmente bonita também e sei que que a primeira coisa que fazes quando tens um livro nas mãos é cheirar as páginas, por isso não estás ou estarás     serás sempre bonita     a cheirar as páginas embora não saibas a razão e eu não te pergunto que não tenho que saber tudo não quero saber tudo que o mistério é a música mais íntima das coisas e quanto mais velhos quanto mais usados amarelos melhor o cheiro e também por isso o meu presente para ti são palavras que cheiram a livros escritos há muito tempo para ti

e apenas um segundo dos teus olhos

e eu sei que o medo se faz sempre presente e não desaparece  e é claro que a primavera ajuda e o mar de verão anil ajuda e o outono de alegria e desespero das folhas coloridas que se deixam cair no vento ajuda, mesmo quando não encontramos as palavras que nos escolhem e nos deixam as veias muito abertas para conseguirmos sentir e sentimos

e o medo sempre presente até eu te segurar a mão e eu sei que não há receitas infalíveis não há caminhos totalmente seguros ou um só caminho sequer     e o medo eu sei     mas às vezes basta deixar o sonho começar

e não te digo para abrires a gaveta da tua secretária mas hei-de querer sempre desejar-te um dia radioso tão lindo como o teu olhar, por isso o verso tatuado na flor gerbera ou orquídea-blue que só podes ver se fechares os olhos com muita força

e um segundo dos teus olhos     mesmo o mais breve

que quando me olhas não acontecem apenas pequenas explosões cavalos no meu peito tremores de terra finíssimos, acontecem abalos sísmicos de dimensão épica seguidos de tsunamis vibrantes de veludo índigo e madrugadas e crepúsculos como me aconteceu segunda-feira quando disseste: ´dá-me um tiro`: como me aconteceu quando te agarrei e puxei o teu corpo contra o meu e agora se quiseres podes dizer adeus definitivamente e sabes bem que não era bem um tiro que me apetecia dar-te nesse segundo eterno dos teus olhos em que visitei locais secretos refúgios de pequenas felicidades e cidades surpreendentes de sol e agosto para ti todos os dias

que tu naquele vestido que parece que cresceu nasceu surgiu de geração espontânea ao redor das curvas do teu corpo que são como as deste rio de outono casa de sonhos que nos faz amar o silêncio

e gosto de entrar na noite alta a escrever para ti

nenhum som produzem estas horas por isso gosto de entrar na noite alta a escrever para ti ficar aqui parado na transcendência de olhar para ti tranquilamente  e lentissimamente desfolhar-te pétala por pétala até poder dizer

o segredo dos teus olhos és tu

e podia não ter escrito mais nada

e o segredo do teu sorriso és tu e podia não ter escrito mais nada ou só o teu nome e ficava tudo dito os arquipélagos dos sonhos  as constelações da memória o saint michel que existe para lá dos postais iluminados e da lucidez fria das fotografias a baía a minha letra fio do meu sangue a deixar sussurros na areia

o teu nome apenas

o segredo

tu

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

a distância não existe quando te insinuas assim ao meu olhar


hoje voltei a sonhar contigo e tu não sabes

a distância não existe quando te insinuas assim ao meu olhar

podia dizer-te que voltámos a fazer amor e que até a esta hora em que te escrevo e tu me olhas, sei que olhas, continuamos a fazer amor

mas prefiro falar-te de como tudo começou de como tudo começou com aquela frase gravada no teu olhar    aritmética simples do coração arritmia     o teu não sei talvez não porque talvez nada do que queres te possa dar e o meu não estou assustado por ter de te esperar 

que o tempo não existe e se existe é apenas para que eu te possa esperar

e não tenho medo
e não tenho medo de andar pelas ruas desta  cidade que é só varandas e janelas e muitos olhos e varandas e janelas e muitos olhos a apontar: aquele é dos que espera, o pobre não se importa de esperar

a canção dos futuros segredos toca baixinho até a conseguirmos ouvir, eles não sabem
a canção dos futuros segredos toca baixinho até a conseguirmos ouvir

e eu já comecei a ouvir a canção que toca baixinho e nunca precisei de te levar àquela sala de tonéis e uma certa luz de anoitecer brilhante, sempre estiveste lá e ao leres isto sei que vais fechar os olhos e vamos estar lá e tu vais olhar-me e quando tu me olhas sinto-te a entrar  dentro de mim pé ante pé e a luz vai aprender a calar-se e a minha mão há-de agarrar-se à transpiração da tua tatuagem e a distância deixará de existir comigo a cheirar-te, que sempre gostei de te cheirar, a adivinhar o teu cheiro, a cheirar-te para além do teu cheiro, a cheirar-te por dentro

e daqui a 10 anos vamos continuar naquela sala de tonéis e uma certa luz e o teu cheiro e daqui a 10 vou estar talvez demasiado velho e sabe-se lá com que mãos, de parkinson ou alzheimer, mas  vou continuar a estar lá contigo e a sonhar contigo e acordar contigo a dizer: sempre quis estar com um homem que para além de estar comigo alimentasse noites de sonho comigo porque não há nada mais bonito do que sonhar-se com quem já nos pertence completamente

que eu sei que pertences
e ainda não te disse mas ficas bem de azul, parece-me sempre que vestiste o céu ou o mar, e ainda não te disse mas ficas bem de verde e de preto e de sandálias e com um livro amarelecido sobre os joelhos com a flor que deve ter sido escrita para ti e o livro também para ti e o rio ao fundo e a flor foi escrita para ti e brota do teu cabelo amarela e gosto do teu queixo pequena ameixa radiante de verão e das tuas tranças e gosto do teu queixo e das tuas tranças e as tuas tranças devem ter música que só posso sonhar contigo que és a árvore que me oferece o vento e me ensina a língua azul dos pássaros e o rio ao fundo à espreita

e os sábados nos teus lábios serão sempre muito melhores do que os sábados podem ser

e mesmo nos dias em que as manhãs tragam o nevoeiro, que os haverá, e mesmo nos dias em que as manhãs tragam o nevoeiro  e façam amanhecer desertos para molhar o nosso sono ou inventem outras mil maneiras de chorar não haverá no mundo sangue suficiente para me separar de ti que vim para te completar, embora não te falte parte alguma, vim para te completar

e o meu único talento é ver-te existir, decorar os teus movimentos, tocar-te e os meus dedos tocam-te agora, sentes, e os meus olhos tocam-te, e a minha boca toca-te e os meus dedos tocam a tua boca e só nasceram para isso, sentes?

 e quando leres isto não vais ter a certeza de que foi escrito para ti e vais ter medo que tenha sido escrito para ti e vais perceber que só poderia ter sido escrito para ti apesar do medo, que não preciso que poses para mim para te escrever porque caminhas nos meus olhos e eu gravo os passos do teu olhar 

domingo, 12 de fevereiro de 2012

E no final nem o teu nome terá existido


Há noites que são um oceano que apetece muito mas não afoga

Ouves o vento lá fora, ouves enquanto dormes?

Não sei se a Primavera volta para lá das rosas, não sei

Mas parto

Deixo-te hoje, mas já tinha começado a deixar-te há muito tempo. Fui-te esquecendo em pequenos gestos de esquecimento, pequenos nadas

Deixo-te e deixo-te completamente, esqueço-te, apago-te e no fim nunca terás existido. E não haverá mais corpo para reconciliações, novas tentativas, para as promessas de sempre. E não haverá mais sul para mensagens a todas as horas, mensagens depois do bip, flores no tapete de minha casa, que descobrirás, e no trabalho e no carro e em todos os meus passos.

Estou a deixar-te. E deixo-te porque te quero deixar, porque não te quero mais, porque sempre estiveste destinado a não teres existido. E deixarás de existir tranquilamente e a respiração não acelerará quando te vir trazer outra pela mão, quando me disseres olá não engolirei em seco, não sentirei o meu coração cheio de pássaros a rasgar-me o sangue, porque no final não terás existido e não serás tu quem vejo sempre e quem me faz correr para o telefone e ao primeiro sinal de chuva um gostinho a ti, não

Não será o teu nome que gritarei quando só puder gritar, não serão para ti as meias novas, a lingerie, o cabelo por apanhar e nem os lábios pintados as unhas pintadas as lágrimas, a boca, as mãos muito exactas, o medo, a solidão das noites frias, de mar mais alto

E não terás mais abraços que o teu, não será para ti a fome

Os sonhos mais altos, as noites de maior pele, as noites de pele o desespero os ciúmes os cabelos arrancados às horas vagas de certeza, e nem a desconfiança a monotonia a rotina das paixões, os nãos às noites com as amigas, os nãos aos dias com as amigas, os nãos às noites comigo aos dias comigo, os nãos 

E não serás tu do outro lado da cama

Não serão para ti as mentiras sempre que chego tarde ou não venho ou me preocupo porque chego tarde ou não venho, e porque é que nunca quiseste saber se eu com outro, se eu não como te contava a mentira, se eu nada com o silêncio a tornar-se transparente.

E no final nem o teu nome terá existido

E sempre fui eu que te perguntei… e quando o amor acabar? E o amor acaba, embora tu digas que não

O amor não é uma estação que se demora nos olhos até os tornar cegos a tudo e os meus já não têm mais Verão para ti,

Já não é a tua a pele que mora debaixo das minhas unhas, nem teus os beijos que me sufocam e são as minhas brasas e os meus 365 dias

Deixo-te esta carta como deixo tudo o resto, como me deixo um pouco aqui, não por ti, por mim, quero nascer outra e não quero nascer de ti.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Não namores um rapaz que lê


Não namores um rapaz que lê! Não namores um rapaz que gasta todo o seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ele tem problemas de arrumação e não é só porque tem demasiados livros, ele tem problemas de arrumação no coração. Não namores um rapaz que tenha uma lista de livros que quer ler, quem é que tem uma lista de livros que quer ler?!...

Que pense que Paris é a Paris d`Os Sonhadores de Bertolucci, do cemitério de Montparnasse, do café onde a Améli trabalha e o Yann toca, da Cinémathèque porque tem a mania de gostar de filmes que ninguém gosta, que tu não gostas, filmes que se parecem com a vida, mas não como ela é, que sabe que Musil não é um tipo de massa e pensa que alguém se importa com isso!

Se encontrares um rapaz que lê... foge!  Vais saber que é ele, porque anda sempre com um livro dentro da mochila, provavelmente um daqueles que ninguém lê, provavelmente um Thoreau, um Bukowski, um Barthes. É aquele que percorre eroticamente as estantes das livrarias, aquele que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria, como se se pudesse encontrar um livro... o pobre não sabe sequer que os livros é que nos encontram. Vês aquele rapaz com ar estranho, a cheirar as páginas de um livro velho, num qualquer alfarrabista, desses que só as moscas visitam? É o leitor, o nefário. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas... sabe-se lá mais do que é capaz!

Ele é o rapaz que lê enquanto espera por ti no bar ao fundo da rua. Ele é que o que pede um copo de vinho. Ele é o que olha o copo, como se olhasse uma pedra preciosa, um livro (um livro diria ele). Ele é o que cheira o vinho antes de o fazer girar pelo copo e por toda a boca... e sim, ele emite pequenos sons, ruídos, enquanto faz isso. Ele é o que repete todos esses passos de cada vez que tira os olhos do livro. Sim, confirma-se o pior dos cenários: para além de ler, gosta de vinho: para além de ler e gostar de vinho, gosta de ler e de gostar de vinho. Ele é o que depois escorrega de novo para a leitura, como se não houvesse mais mundo por onde andar, só o mundo do autor. Foge! Sobretudo, não te sentes... Ainda que ele te veja de relance, não pares, não retribuas o olhar, vota-lhe o desprezo que todos lhe devemos votar. Foge, não te sentes e ainda que ele te veja de relance, não lhe retribuas o olhar, e sobretudo, pela tua saúde, não lhe perguntes se está a gostar do livro e não lhe ofereças outro copo de vinho, e não te sentes e foge e foge e...

Não lhe perguntes sobre Murakami, ele provavelmente  responderá, com o olhar: Sputnik, meu amor ou Kafka à beira-mar. E entende que, se ele disser não ter gostado da tradução brasileira do Ulisses de Joyce, não é só para parecer mais inteligente, quer dizer, precisamente, que não gostou da tradução brasileira (nem sequer de Português BR, brasileira) do Ulisses de Joyce...Mas que raio, porque é que alguém deveria ler o Ulisses de Joyce? E se te sentares, não te demores, ou ele falar-te-á ainda de um tal sr. Antunes com quem fala todas as tardes de livros, nos cafés, nos autocarros, nos bairros do sr. Henri, do sr. Kraus, de Swedenborg... nos livros que existem dentro de outros livros.

Olha que não é fácil namorar com um rapaz que lê. Só quer livros: livros no dia de anos: livros no Natal: livros em todas as datas especiais que ele seja capaz de recordar, felizmente não serão muitas! Só quer palavras como presente. Só quer palavras como presente e só dá como presente palavras... palavras em poemas, palavras em canções, palavras nas paredes que gritam o teu nome, palavras até à náusea... Só quer Borges, Andrade, Helder  e Vasco, Daniel, Miguel-Manso e Filipa e outros que ninguém conhece, como se mais alguém perdesse tempo com coisas tão inúteis como a poesia, inutilidade que ele próprio não refuta ( a mais bela das coisas inúteis, e a mais útil também) . Perceberás que ele pensa que as palavras são amor, e valem por si. Perceberás que ele não distingue entre livros e realidade, e pensa que esta pode ser como um dos seus livros preferidos, qualquer um.

Mente-lhe. Desilude-o. Ele compreenderá que é isso que acontece na vida, porque um livro já lho disse. A vida é clímax, é desespero, é música e maravilhosos fins de tarde que não se repetem até serem repetidos, revividos... Ele sabe que até as mais bonitas histórias têm fim, e não só porque um livro já lho disse, mas no final estará sempre tudo bem. Há lá coisa mais irritante?  
Ele acha que as pessoas, tal como as personagens, evoluem, mudam. Excepto na saga Crepúsculo e em todos os livros(?) – ao dizer isto ele rir-se-ia estupidamente – livros(?)– ao repetir isto ele diria estupidamente, chamar-lhe livros é um eufemismo – da Margarida Rebelo Pinto.

Se encontrares uma rapaz que lê, e se por qualquer desgraça não conseguires fugir, afasta-o  logo que tenhas oportunidade, não o mantenhas perto de ti. E se o vires acordado às duas da manhã, e verás, a chorar femininamente e a apertar um livro contra o peito, por Deus(!), e se não conseguires fugir, volto a recordar-te, não lhe faças uma chávena de chá, muito menos o abraces. Volta para a cama e reza para que ele só se vá deitar quando te estiveres a levantar.

Já estás a imaginar, não é? E ainda não é o pior.


Ele, necessariamente, vai querer declarar-se num balão de ar quente, porque só a isso chama ele declaração, ou durante um concerto de Chico, ou ouvindo Tom ou enquanto te canta Caetano, vê um filme, mas nunca pelo skype ou facebook…

E vais sorrir tanto que te perguntarás: quererá ele que o meu coração expluda e espalhe sangue por todo o lado? [obviamente para tu limpares, se bem que ele também pode padecer desse enorme defeito de acreditar na divisão de tarefas...Oh, não, provavelmente, ele também não te deixará cozinhar mais do que meia dúzia de vezes...o pesadelo!]
 E vai querer escrever a vossa história, e vai querer ter filhos, ainda que diga que não quer, e vai querer dar nomes estranhos às crianças e falar-lhes de coisas estranhas enquanto lhes nega um telemóvel... Sim, ele possuí a perfídia necessária para recusar um bem tão essencial como um telemóvel a uma criança com menos de 12 anos. 

E pensavas tu que já sabias o pior. E não, depois de o teres aturado toda a vida, e ele ter feito Invernos de todas as fases da tua vida, vai querer dizer-te Neruda ao ouvido enquanto te tira um cavaco da mão para alimentar a lareira.

 Não namores um rapaz que lê, porque tu não mereces, ninguém merece! Mereces um rapaz que te possa dar uma vida mais colorida. Se queres ser feliz, olha que serás mais feliz sozinha. Mas se queres passar por tudo o que leste acima (obviamente que não), então vá, namora com um rapaz que lê, mas depois não digas que eu não te avisei.

P.S.: Se lê e escreve...é ainda menos recomendável!

(a partir do Namora uma rapariga que lê, de Rosemary Urquico)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

e sempre esta casa vazia de saudades e de mar


escrevo-te de um lugar que não existe
escrevo-te de um lugar que não existe porque sem ti sou uma terra sem lugar uma casa vazia de saudades lua sem febres mar gaivotas nem casas para incendiar que a tua pele era um incêndio e por isso escrevo-te do pôr-do-sol que éramos e não existe e só a solidão

e a solidão não se desaprende, sabias? digo: a solidão não se desaprende nem na morte

por isso escrevo-te destes dias que pedem nevoeiro relâmpagos inteiros invernos por inventar em cidades saqueadas úteros vazios exércitos de orgasmos por resgatar e escrevo-te de todos os lugares, os nossos lugares, que não existem e de que voltei inteiro que só de ti não soube voltar e Veneza não existe Madrid não existe o Alentejo não existe nas planícies de superfície mais ou menos lunar de que soube voltar inteiro

só de ti não soube voltar

das tuas mãos pequeninas feitas para beijar o frio que só existia para eu te poder abraçar e beijar e os autocarros felizes comigo a ler para ti e as árvores felizes os bancos de jardins felizes contigo deitada e eu a ler para ti poemas cartas pequenos versos que nasceram de ti a mexer no meu cabelo

e o para sempre nas fotografias foi sempre teu

e eu: diz cheese e tu para sempre em vez de cheese por isso o para sempre nas fotografias foi sempre teu e o para sempre nas calçadas que gastámos foi sempre teu o para sempre em todos os para sempre nas mãos dadas nos beijos deixados nos vãos das escadas nos aeroportos nos estacionamentos dos aeroportos nas chegadas foi sempre teu

e esta casa a que estou sempre a chegar

e estou sempre a ver-te e não quero e não quero pensar nas calçadas e em quando nos deitámos e me disseste não preciso do mundo para nada e o fumo do teu cigarro é minha testemunha e tu disseste para sempre e o céu estrelado é minha testemunha mais as estrelas que já não existem

e respirar fazia sentido o amanhecer das flores fazia sentido e os equinócios do coração faziam sentido na sombra dos planetas e no voo magro das estações de todos os poemas por escrever

e sempre esta casa vazia de saudades e de mar

e continuo a adormecer depois de ti e só consigo dormir contigo para sempre e nenhuma outra, juro, que só consigo dormir contigo para sempre e este para sempre é meu que só consigo dormir contigo e acordar com os teus pés fósforos nos meus os teus beijos no meu ombro olhos fechados lábios secosmolhados no meu ombro os teus braços a expandirem o mundo na tua mão a minha cintura a acordar contigo

e respirar fazia sentido

e continuo a apanhar as cuecas que deixas pelo chão órfãs meias órfãs eu órfão deixado pelo chão para sempre a receber os teus beijos pintados num espelho de batom

e não pertenço a mais ninguém e não posso amar mais ninguém e nunca hei-de fazer ninguém feliz,

só dor tenho para dar dor e uma particular maneira de sofrer e ser infeliz e de morrer miseravelmente em alguns poemas tristes

por isso digo: não se desaprende a solidão da forma em que eu te pertenço completamente: por isso digo: devolve-me

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

quando me tocas acontecem pequenas explosões tremores de terra finíssimos dentro de mim


acredita não exagero quando digo que tu és linda e mereces alguém com a racional urgência de te dizer: és linda

todos os dias te dizer és linda as horas todas

e não exagero acredita e quando digo que és linda quero dizer és a mais linda: a manhã primeira e mais pura: a cereja que anuncia às andorinhas a primavera: a musa de todos os poetas de todos os tempos e és Constantinopla e Paris e todas as luas de Júpiter mais os anéis de Saturno e és Rainha e és de carne e osso e eu fico feliz que sejas de carne e osso e que tenhas olhado para mim pobre mortal tu que és verso e és poema e és mais que poema és o poema

por isso quero que saibas que quando olho para ti vejo-te, e também ao que insistes em guardar e é lindíssimo e o meu sabor preferido será sempre o dos teus lábios quando acabas de os molhar vejo-te e não preciso de te dizer que as estrelas só são estrelas no teu olhar e que não há mais eternidade que um instante dos teus olhos dos teus lábios do teu cheiro ou memória quente do teu cheiro e do cheiro que os teus lábios deixam nos meus 

e sim quero dar-te romance inventar dias de frio só para poder acordar contigo, acordar devagar,  ver-te acordar levar-te o pequeno-almoço à cama rir contigo enquanto te pinto a cara de nutella que me obrigas a lamber e lambo e fazer-te rolar na cama enquanto tentas escapar sem querer realmente escapar dos meus braços das minhas mãos dos meus dedos que te agarram e sentir todas as coisas entrarem num silêncio lentíssimo menos o bater do teu coração e beijar-te e inventar dias de chuva para eu e tu no sofá e uma manta eu e tu e uma manta enrolados e a preguiça a subir por nós e um certo encantamento ou magia com a Beth Gibbons a sussurrar Roads só para nós

e beber-te até nos instantes mais breves estar contigo sempre como se fosse a última vez com a magia da primeira

e mais romance e loucura e as tuas fantasias que só eu conheço porque são minhas e jantares a meia luz velas e inventar a chuva sempre que queiras dançar e a banheira pétalas velas poemas e os livros que escreverei no teu corpo de terra quente água estrela pura constelação flor nascida da erupção de um vulcão  que quando me tocas acontecem pequenas explosões tremores de terra finíssimos dentro de mim que o teu cheiro na minha almofada é uma noite de especiarias a inclinar-se sobre o dia para me receber e o teu beijo faz amanhecer em mim todas as estações até as que já não existem fora das ilhas de Neruda

mas também quero que quando olhes para mim vejas que eu também estou aqui para ser o teu ombro o teu ninho a tua casa terra firme o mar todo para as tuas lágrimas

e sei que vou ter de trabalhar para te conquistar mas o mais importante de tudo tu já sabes: saberei sempre esperar-te

e ainda que fique sozinho não estarei verdadeiramente sozinho,
estarei a esperar-te

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

quando eu beijo o beijo que é meu e que tu guardas


perguntaste-me muitas vezes quando falámos ontem: mas o que é que mudou?

se calhar não mudou muita coisa: aconteceram-me os teus lábios e em mim a consciência dos teus lábios, acho que não posso explicar isto de forma mais simples e acertada, aconteceram-me os teus lábios e isto é dizer muito

aconteceram-me os teus lábios. acordei. não estavas aqui. era Outubro e Outubro não era só Outubro, era também Novembro e era Dezembro e Janeiro e eu não quero que Outubro se estenda por todas as horas que estão para nascer e morrer, ou quero mas não se não estiveres aqui e aqui é uma eternidade sem lugar
aconteceram-me os teus lábios e eu apercebi-me que tu me apeteces sempre e deixei de lutar contra o facto de tu me apeteceres sempre e por muito que morra vão apetecer-me sempre os teus braços e não me apetece lutar mais contra isso e não só os teus braços a tua pele suada  as pequenas sardas do teu pescoço nos meus dentes a tua carne a moldar-se nos meus dedos que tu és o sol que se esconde por trás do sol, um sol mais magnífico e mais radiante e mais quente, e a lua e o brilho do sol e da lua

e se te digo coisas que mais nenhum homem te diz é apenas porque tu és um  milagre criado para mim, e eu sei agora reconhecer  isso e sei também que não temos música não temos datas marcadas no calendário e provavelmente não me lembro do nome do dia em que se deu o segundo eterno em que os teus lábios tocaram os meus pela primeira vez embora lembre exactamente o que trazias vestido e se não lembro o resto é porque o resto não existiu porque quando eu beijo o beijo que é meu e que tu guardas tudo desaparece o mundo não existe os dias não existem a morte não existe, somos só nós e juro que neste momento te ouço dizer-me ao ouvido somos um só, somos um, e somos mesmo e que se lixe a música que não temos e que não existe porque quando estou contigo toda a música de que preciso vem de dentro do teu corpo toda a música e poesia vêm de dentro do teu corpo onde constelações de música e poesia me dizem somos um só me cantam somos um só me gritam somos um só

e sinceramente não acho que fomos feitos um para o outro na cama que é claro que fomos feitos um para o outro na cama, mas não só, na cama é onde já percebemos que encaixamos perfeitamente e se dá a magia mas esta magia é só um espelho da magia que podemos ter e ser e nem precisamos que tudo seja perfeito

e agora bateram-me à porta e juro que só tu na minha cabeça

 e não precisamos que seja tudo perfeito porque mesmo nos dias tristes, e não te engano, haverá dias tristes e dúvidas e já não te aturo mais, mas não precisamos que seja tudo perfeito porque mesmo nos dias tristes um fio dos teus cabelos o teu cheiro os meus braços, porque mesmo nos dias tristes e de dúvidas e de já não te aturo mais serás a única, porque tu és única porque quem te tem tem todas as mulheres que existiram e que existirão

e ainda que isto não corra como eu espero que corra ainda que tu digas não: ainda que tu suspendas o tempo: ainda que obrigues os pássaros a inventar a respiração: ainda que cales as bibliotecas,
põe-me em modo de espera , e sabe que eu saberei esperar-te
e não temas e não duvides e afasta o medo porque tu serás sempre quem os meus olhos vêem, mesmo quando já não possam ver

e ainda que não me queiras, mesmo querendo como me queres porque quando me vês só existo eu, tu cega para tudo o resto, mesmo perante a sombra desse sofrimento descansa, nunca me magoarás, nunca me farás sofrer, porque eu  saberei sempre que tu vales todos os riscos por isso saberei sempre que desta vida já recebi muito mais do que ela valia

e só um beijo teu

e sei que isto que escrevo agora não vale 19 rosas (não havia 20 na loja?), talvez não valha sequer aquela que nunca te dei, mas só as histórias verdadeiramente tristes têm rosas e rosas qualquer um pode dar e as histórias tristes têm rosas mas não têm poemas, esta história tem poemas mas não tem rosas, só pétalas deitadas numa cama, só pétalas nascidas para te esperar, para sentir o teu corpo, para marcar o teu corpo como meu, para te mostrar o caminho para casa enquanto eu te levo ao céu e ao inferno e aperto o teu corpo contra todas as paredes nascidas para o nosso calor para o teu fogo para tu morderes o lábio não só quando estás a pensar para eu em ti e tu em mim para nós um só para um cigarro que isto merece um cigarro enquanto a lua insiste em dourar o teu flanco e é tudo tão natural, tudo tão forte e natural,

e nenhum medo apenas um verso que escrevi sem saber que era para ti que o escrevia: morreria para poder seguir os teus passos molhados a caminho do quarto